O entrevistado dessa edição, Flávio Maneira, é particularmente especial por vários motivos.
Primeiro, porque apresentamos com muita satisfação o trabalho desse profissional que desenvolve uma série de projetos sobre qualidade e qualificação profissional, ministrando palestras, cursos e mostras sobre treinamento e capacitação para diversas empresas de grande expressão no cenário nacional.
Segundo, porque Flávio Maneira, ao ministrar seu trabalho sobre neurociências no treinamento e formação de quadros profissionais de diversas áreas, vem ao encontro de um tema de grande relevância, abordando o importante papel da formação e capacitação humana como valor maior para o desenvolvimento e crescimento das atividades das empresas e nos levando a compreender que "os valores intangíveis", segundo o próprio entrevistado, são os mais importantes em quaisquer circunstâncias para se agregar qualidade e excelência do produto final nos empreendimentos, quer sejam de micro ou pequenas, quer sejam de grandes corporações. Vamos, então, sem mais suspense à essa inteligente entrevista de Flávio Maneira:
Hoje em dia a atividade de qualificação, treinamento e gerenciamento de recursos humanos tem se destacado no mercado de forma exponencial. Qual é a real importância de qualificar e preparar bem um profissional para desempenhar melhor seu trabalho em sua área de atuação?
Sem dúvida é uma área que cresce e parte de um momento, que era embrionário, para algo visível em diversas organizações e setores, o que a longo prazo irá fazer total diferença para a economia de nosso país. Quanto a importância da qualificação e preparação, eu diria que é "toda", ou seja, isso vai definir o sucesso ou insucesso de uma organização de forma sustentável (longo prazo). Porém, existe um "step" antes desse, em que a maioria das empresas peca, que é: Será que esse profissional está na área certa? Vamos entender o seguinte racional: Só conseguirei dar o meu melhor se estiver fazendo o que gosto e, mais que isso, se nessa área de atuação eu serei motivado a utilizar os meus talentos dominante, (as competências que desempenho acima da média), que todos nós a temos.
As empresas brasileiras, de um modo geral, dão o verdadeiro valor a esse trabalho de qualificação ou ainda isso é uma pratica recente no ambiente empresarial?
Percebo um movimento, ainda tímido, nesse sentido. Com certeza, as empresas brasileiras que saírem na frente no seu aprimoramento e/ou implementação da "gestão estratégica de pessoas" garantirão um futuro saudável. Já temos exemplos consistentes de empresas que atuam nesse sentido, entre elas: Boticário, Natura, Biolab, Aché, Petrobrás, entre outras, ou seja, estão mais preocupadas com a "gestão estratégica de pessoas", com avaliações de performance mais claras e mais justas, porém, ainda existe grande lacuna junto a média liderança, ou seja, os líderes que estão na linha de frente. Tem muito a ser feito.
Houve uma época em que os empresários focavam sua atenção sobretudo à produtividade, à competitividade e aos resultados financeiros. Em sua visão, esse foco tem sido direcionado para outras áreas recentemente?
O gestor brasileiro é imediatista, ou seja, quer resultados rapidamente, com foco no curto prazo. Isso não é saudável para ninguém, nem para a empresa, nem para a economia brasileira. Isso se dá ao fato de que nossa cultura não é estrategista (não nos planejamos), e, por sermos "criativos", arrumamos sempre uma solução de "última hora". Temos muitos talentos na área de pesquisas científicas, de onde exportamos, por não ter incentivo local.
Nos preocupamos muito com o "quanti" e pouco com o "quali". Alguns setores estão saindo na frente, pois estão aplicando a regra inversa, ou seja, primeiro um planejamento financeiro tangível, baseado em pesquisas mercadológicas, depois o foco em gente, com forte cultura de desenvolver pessoas, que são o que qualquer empresa tem de mais valor!
No processo de qualificação e treinamento dos quadros nas empresas, há hoje áreas ou atividades específicas em que esses funcionários tem mais dificuldades em se adaptar?
Sim, as áreas que são antagônicas à sua natureza. Por exemplo, nós, seres humanos, somos divididos em 4 tipologias de personalidades, das quais, na maioria das vezes, temos 2 predominantes e as outras em menor proporção. São elas: Melancólica, Freomática, Sanguínia e Colérica. Eu utilizo em meus treinamentos o conceito do autor Herman Brain, aonde ele metodologicamente utilizou as cores e o cérebro.
As pessoas que tem como predominante o lado esquerdo do cérebro (Azul/Verde) tem como características areas da exatas, ou seja, são pessoas lógicas, analíticas, baseadas em fatos, sequenciais, planejadas, detalhadas, entre outras. Já as que tem como predominante o lado direito (Vermelho/Amarelo) tem, como característica, a habilidade para as áreas humanas, pois são pessoas interpessoais, sentimentais, intuitivas, integrativas, emocionais. Ambas tem suas características boas e ruins, porém, quando você tem no seu departamente de TI alguém que é Vermelho/Amarelo, você pode ter um problema se não capacitar essa pessoa de forma assertiva e estratégica.
As neurociências eram até pouco tempo vistas como matéria catedrática de universidades. Hoje em dia é notado que as aplicações desses conhecimentos na formação e preparo dos profissionais são cada vez maiores. Nesse sentido a neurociência pode ser considerada como um divisor de águas na formação de um profissional?
Sim, sem dúvida alguma. Existem alguns "mitos" quando falamos de "cérebro" e o mais comum é: "Usamos somente 4% do cérebro". Esse argumento se deu na década de 60 sem fundamento científico e única e exclusivamente para aumentar as vendas de um escritor que usava temas ligados ao tal "fascinante" e "misterioso" órgão. Na verdade, usamos 100% do nosso cérebro, porém, existem regiões mais ativadas e outras menos ativadas.
Vamos às principais descobertas dessa última década e que geraram o Nobel da Medicina: os seres humanos podem criar novos neurônios ao longo de toda a vida; o esforço para criar novos neurônios pode incrementar-se mediante o esforço mental. (ou seja, leitura, games, esportes, alimentação adequada e uma boa noite de sono); os efeitos são específicos: dependendo da natureza da atividade mental, os neurônios novos se multiplicam com especial intensidade em distintas zonas cerebrais.
Com o avanço da ciência e da tecnologia, principalmente ligados ao "imageamento cerebral" (PET-Scan, Tomografia computadorizada, ressonância Magnética, etc), estamos cada vez mais descobrindo como nosso cérebro funciona (neurociências), chegando até a "neuroquímica" que acontece conosco envolvendo nosso "comportamento" (seja ele num momento de tomada de decisão, de stress, de paixão, dor, criatividade) e acreditem... estamos mudando o conceito de "inteligência" (estamos conseguindo mapeá-las e criticar modelos até então singulares).
Nosso país é hoje a sexta potência econômica mundial. No entanto, ocupamos ainda o 84o lugar no ranqueamento do I.D.H. (índice de desenvolvimento humano), que mede a qualidade de desenvolvimento social e de bem-estar de um país. Podemos dizer que grande parte dessa situação reside na falta de preparo e formação dos profissionais em suas áreas de atuação?
Acredito que parte disso, sim, mas é somente a ponta do iceberg. Entendo que é uma questão multifatorial e que existem muitas áreas a serem melhoradas como: educação, saúde, entre outras. Atrelado ao I.D.H está o fator mais importante dos países que ocupam as dez primeiras posições: Gestão do Conhecimento, o que, no Brasil, ainda é uma área desconhecida e com poucos incentivos. Isso reflete também no meio organizacional, principalmente no meio público.
Porém, vejo com ótimas perspectivas, por exemplo, o setor de saúde pública em específico medicamentos especiais, como para HIV, Hepatite, Doença de Alzheimer, Parkinson, entre outras, tem se comportado de forma surpreendente em toda sua cadeia (desde a informação , da chegada do paciente até a dispensação da medicação) até de forma multidisciplinar, ou seja, todos ganham, o paciente, os setores em geral.
A ética nas relações profissionais dentro das empresas tem sido um tema bastante discutido, não apenas como um parâmetro idealizado, mas como uma filosofia prática e necessária na nova ordem dos negócios. Podemos acreditar que nossa classe de políticos vá, até por pressão, se espelhar nessa nova postura dentro do meio empresarial?
Eu particularmente vejo uma luz no fim do túnel. Nós somos um país novo, politicamente falando, e a "conectividade" envolvendo informação, levando boas práticas de vários setores e estimulando fóruns, seminários e congressos, em que estão inseridos o setor publico e o privado, tem acontecido com mais frequência. Por exemplo: no último seminário (24/11), que ministrei juntamente com o Eduardo Carmello (Consultor Gestão Organizacional), estavam presentes gestores do setor público que contribuíram de forma impressionante com uma causa: construir uma organização (ambiente) melhor e que é através de gente mais capacidade que conseguimos isso. Isso me motiva!
Outro aspecto bastante interessante tem sido a preocupação crescente das empresas em relação à sustentabilidade. Podemos deduzir também que essa necessidade de se adequar ao meio ambiente e ao meio social tem levado as empresas a adotar uma postura cada vez mais ética e comprometida com os interesses e necessidades dos seus consumidores?
Esse é um caminho sem volta, assim como a tecnologia (celular, internet, rede social) mudou nosso comportamento, as questões ligadas ao meio ambiente (sustentabilidade) definirão o caminho das empresas, independentemente da área de atuação. São lançadas campanhas virais que atingem o mundo inteiro e nos fazem pensar sobre o lixo, a água e a reciclagem, por exemplo.
Vejamos, o profissional do futuro (os estudantes e pessoas que estão entrando no mercado de trabalho nesse momento) não quer apenas trabalhar numa empresa onde seus valores não são feridos, mas principalmente querem trabalhar numa empresa em que se preocupa com o meio ambiente, afinal, queremos um mundo melhor, não é mesmo? Cabe aqui uma recomendação: quem não assistiu ao filme Avatar, assista e veja por essa óptica.
No texto de capa do seu portal na internet há uma citação em que você declara:"(...) é através de pessoas que conseguimos atingir 'valores intangíveis' ". Que valores seriam esses?
Uma das transformações mais importantes da economia nas últimas décadas tem sido a valorização contínua da propriedade intelectual, especialmente de marcas, cada vez mais vistas como garantia de qualidade de produtos e serviços. É a marca que faz a diferença entre empresas, e desse valor intangível, decorre o que se chama de “fidelização” dos clientes, que as empresas se empenham em manter ou em conquistar.
Uma pesquisa realizada pelo Federal Reserve Board (Fed) revelou que atualmente 47% do valor líquido das empresas americanas eram vinculado a ativos intangíveis ou “brand equity”, conceito que expressa, sobretudo, o valor da marca das empresas, ou seja, tudo que não é ativo.
Os CEOs, empresários, microempresários, ou seja, toda organização, quer que seus funcionários sejam "lovers" ou "apaixonados" pela empresa que trabalha, certo? Pois é, mas pouquíssimos conseguem isso (que eu chamo de valor intangível), estabelecer o "Branding" no seu DNA. Por exemplo, o que a Apple conseguiu com maestria através de Steve Jobs.
O legado dele vai além da Apple, da Pixar e dos produtos que ele ajudou a desenvolver. Famoso pela oratória, pela capacidade de síntese de ideias e pelo carisma em suas apresentações, Jobs deixa ainda uma coleção de afirmações polêmicas, frases visionárias e pensamentos que ajudaram a definir os rumos da tecnologia nos últimos anos, ele conseguiu "Valores Intangíveis" através de pessoas. Quem trabalha na Apple (tive a oportunidade de fazer um videocasting na loja de Nova Iorque e confirmei minha tese), tem a loja em seu DNA, no atendimento, no conhecimento dos produtos e principalmente na prestação de serviço.
Não posso deixar de citar uma parte de um discurso dele que resume o que eu penso: "Às vezes a vida te bate com um tijolo na cabeça. Não perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me fez continuar foi que eu amava o que eu fazia. Você precisa encontrar o que você ama. E isso vale para o seu trabalho e para seus amores. Seu trabalho irá tomar uma grande parte da sua vida e o único meio de ficar satisfeito é fazer o que você acredita ser um grande trabalho. E o único meio de se fazer um grande trabalho é amando o que você faz. Caso você ainda não tenha encontrado[ o que gosta de fazer], continue procurando. Não pare. Do mesmo modo como todos os problemas do coração, você saberá quando encontrar. E, como em qualquer relacionamento longo, só fica melhor e melhor ao longo dos anos. Por isso, continue procurando até encontrar, não pare" – discurso durante formatura em Stanford, 2005.
Em seus portfólios, nas redes sociais, seus leitores encontram uma série de vídeos em que você aborda os principais temas desenvolvidos em seu trabalho. Você acha que atualmente a informação 'visual' tem se mostrado mais eficiente na disseminação do informação e do conhecimento que outras mídias?
Partimos para um novo momento nesse cenário do aprendizado (metodologia e neuroaprendizado) e esse é outro caminho sem volta. Respondendo sua pergunta, sim. A informação visual veio para modificar o modo como iremos aprender nas próximas décadas. Por exemplo, hoje um tablet apresenta uma solução integrada: Você ve um livro aonde dentro dele tem vídeos, jogos, testes e até interações com o autor. Não é fascinante?
Os vídeos tentem a ter o caminho dos blogs, microblogs e redes sociais. Eu chamo uma nova tecnologia, que uso muito para treinamento, de "videocasting", ou seja, é o mesmo de Poadcasting, porém com o vídeo. Nós (seres-humanos) somos visuais, gostamos de sensações, que nos induzem ao "experimento' e assim fortalecem nossas "redes neurais", formando uma memória. Feche os olhos e lembre de uma cena marcante do seu filme predileto. Viu?
Discorra agora livremente sobre sua área profissional, sua carreira e seus planos para o futuro. Deixe também, se desejar, uma mensagem aos nossos leitores e suas formas de contato nas redes sociais.
Sou natural de Santos, venho de uma família humilde (meu pai trabalhava no Porto de Santos, minha mãe vendia roupas para ajudar no orçamento em casa) e meus pais juntamente com meu avô paterno ajudavam no meu estudo (estudei a vida toda no Colégio Santista, Marista) que não era barato e nem fácil. Por volta dos 16/17 anos fui trabalhar num posto de gasolina (começei lavando carros e depois passei a ser frentista e depois frentista caixa, ou seja, fiz uma carreira..rs) e lá percebi minha vocação para lidar com pessoas, ou seja, quanto mais eu tratava bem os outros, mais eles voltavam e queriam ser atendidos por mim, não foi fácil, pois fazia faculdade e trabalhava muito.
Em seguida passei pela Petrobrás (Aux. Controle de Qualidade), Prefeitura Municipal de Santos (na área de esportes) e em seguida ingressei no segmento da industria farmacêutica no qual estou por volta de 14 anos. Iniciei na Novartis como representante de uma linha especial (Sistema Nervoso Central), aonde começou minha paixão pela neurociências, em seguida passei por treinamento. Após 8 anos fui para outra multinacional: Schering-Ploug/MSD (passei por uma fusão) aonde atuei também em treinamento (linha oncologia, virologia e hospitalar) e área comercial como gestor, por fim, ainda no segmento farmacêutica vim para uma grande empresa nacional (Biolab) aonde vive um momento de profissionalização interessante e estou como responsavél pelo treinamento dos gerentes de uma das divisões.
Também sou palestrante/consultor ligado a área de "Gestão Estratégica de Pessoas" e sou professor da pós graduação do Senac, dessa mesma disciplina.
Me formei em Publicidade e Propaganda, fiz uma pós graduação em marketing e em seguida fiz inúmeros cursos de educação executiva aqui e no exterior (entre os mais interessantes: gestão do conhecimento, neurociências aplicada, pensamento estratégico, inside the brain) e continuo sempre fazendo algo, pois entendo que não devemos parar nunca de nos aprimorarmos, só assim podemos construir um mundo melhor.
Estou planejando terminar meu livro ano que vem (no segmento da capacitação estratégica de pessoas) e continuar palestrando promovendo a gestão de pessoas como única forma de se tornar uma empresa melhor.
Foi um prazer participar dessa agradável entrevista e desejo que continuem apoiando e melhoria na gestão de nosso país.
Abraços,
Flávio Maneira
Próximas palestras confirmadas são:
- IV Congresso Internacional SixSigma,
onde abordarei o seguinte tema:
“Liderança - Capacitar Estrategicamente, o desafio da Gestão Organizacional"
onde abordarei o seguinte tema:
“Liderança - Capacitar Estrategicamente, o desafio da Gestão Organizacional"
- Congresso Segmento Farmacêutico
Treinamento Latam (América Latina) que será em Miami (EUA), aonde falarei sobre
"As novas regras do treinamento estratégico de pessoas".
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"As novas regras do treinamento estratégico de pessoas".
Segue meu site: www.flaviomaneira.com.br e minhas redes sociais
Facebook, Twitter, Slideshare, Youtube você me encontra como: Flávio Maneira.
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